25 sept. 2010

Fito Paez en la Folha de São Paulo

20/09/2010 - 10h15

Fito Paez diz que Brasil criou uma fortaleza difícil de penetrar

SYLVIA COLOMBO
ENVIADA ESPECIAL A MONTEVIDÉU
"Desde quando os raviólis têm recheio de salmão?", pergunta, a um assustado garçom, o roqueiro Fito Paez, 47, enquanto examina o cardápio de um restaurante da capital uruguaia.
"Na minha época, eles eram ou de ricota ou de verdura, hoje os menus estão cheios de invencionices."
Tranquilizado após ser servido com um prato do tradicional espaguete à bolonhesa, Paez falou à Folha sobre tradições culturais (além das gastronômicas), música pop latina e política.
Ele faz show na sexta no festival Sonidos, que ocorre de amanhã (21) a sábado em SP.
Não só a cozinha contemporânea desanima Fito. Também o pop minimalista de artistas da nova geração. Para ele, nomes como Jorge Drexler e Kevin Johansen têm talento, mas são muito amáveis. Falta combatividade.
"Algumas coisas deles me entusiasmam, mas eu tive uma escola mais complexa e vivi uma época mais conturbada. Por isso minha música é assim", reafirma-se o roqueiro que se formou ouvindo Beatles e Rolling Stones na sua Rosário natal e passou a adolescência na ditadura militar (1976-1983).
Paez considera que a canção popular teve seu sentido alterado. "Ela já não nasce num ambiente de protesto. A situação que fez com que Chico Buarque contasse todo o drama do Brasil numa canção como Construção não existe mais, assim como a que levou Silvio Rodríguez a compor La Maza.
Mas Fito prefere olhar para a frente. "É preciso pensar que o mundo se democratizou tecnologicamente e isso criou milhões de subjetividades. O que se faz hoje expressa essa diluição."
Isso é bom ou ruim? "Não sei, mas é raro escutar a música popular de hoje e encontrar coisas que surpreendam. E está havendo uma grande transformação, sobre a qual não sabemos nada, e não vejo uma reflexão sobre isso."
Apesar de ser um dos artistas contemporâneos argentinos que mais se relacionou com o Brasil -- tocou com Paralamas, Djavan e outros, além de ter sua "Un Vestido y un Amor" gravada por Caetano Veloso -- Fito não tem respostas para a falta de intercâmbio entre Brasil e América hispânica.
"O mais provável é que o fato de o Brasil ter se tornado uma potência musical do século 20, ao inventar a bossa nova e o tropicalismo, tenha gerado um autoabastecimento de ideias. Uma sensação de que não é necessário ouvir coisas de fora."
Para Fito, Mercedes Sosa e Astor Piazzolla só conseguiram emplacar aqui porque se aproximaram de artistas brasileiros, algo que ele vem fazendo desde os anos 1990.
"Há uma fortaleza no Brasil que examina de outra forma o que chega de fora." E elogia Caetano Veloso em seu caminho inverso, ao trazer canções de artistas hispano-americanos de diversas épocas para o Brasil com seu "Fina Estampa", de 1994.
Apesar do sucesso, Fito nunca pensou em estabelecer-se em outro país, como a Espanha, lar de muitos latino-americanos famosos.
Mora na Recoleta, no coração de Buenos Aires. Vê com tristeza a falta de preparo de certos políticos locais, como o prefeito da cidade, Mauricio Macri, que declarou só ter lido um romance de Jorge Luis Borges -- que não escreveu nenhum romance...
"Se chegamos a esse nível, é porque algo anda muito errado no sistema educacional e na nossa sociedade."
Já a presidente da Argentina, Cristina Kirchner, tem seu apoio. Para ele, pela primeira vez um governo questiona os grupos de poder instalados há mais de 50 anos.
"O que houve de fato no caso Papel Prensa, por exemplo? [Cristina atribui aos grupos Clarín e La Nación, sócios-majoritários do governo na fábrica de papel-jornal Papel Prensa, a formação de cartel e a expropriação da empresa durante a ditadura]. Ela também está reparando questões de direitos humanos há décadas em aberto. Aprovou o casamento gay. O agito que propõe é positivo."
A jornalista SYLVIA COLOMBO viajou a convite da organização do festival

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